Libertando o corpo das demandas do eu idealizado

Desde 2013 venho re-pensando a relação com o corpo e o que ele vai sinalizando.

Tudo recomeçou pra mim quando minha tireóide tirou férias.

Recebi a convocação de rever como estava a relação com meu corpo e o que ele precisava, atualizando esta relação: “o que me motivava, já não é o que me motiva”. 

Neste período reconheci claramente uma impaciência com a doença e uma raiva de mim por não ser como eu gostaria de ter sido. 

Tudo depositado no corpo 

Precisei mergulhar além dele.

Re-conhecê-lo.

Observei a carga e a sobrecarga que atribuí a ele em expectativa  de ser “perfeita” em todos aspectos. Tinha um conceito de perfeição e tentava chegar lá. Com o tempo, este conceito mudou e o foco – que era totalmente numa expectativa externa – foi migrando para dentro de mim mesma e mudou quando comecei a lançar para dentro a oração:

“Que eu possa seguir o que for a demanda para minha alma”.

E assim trabalhar menos para o ego.

E também, mais intensamente, comecei a me questionar sobre o belo, a beleza, conceitos de feio e bonito, isto associado a sensações, crenças associadas.

Integrando o sentimento de inferioridade

Adoeci e o bem-estar no corpo não me visitava mais. Sentia uma dor no estômago e por vezes na madrugada acordava por este mal estar. 

Sempre associei muito as emoções com as doenças, mas o que entendia, não supria suficiente para transformar.

Compreendo que enquanto tem sintoma, algo precisa ser olhado, assim segui, muitas vezes impaciente, irritada e aos poucos isto foi se transformando.

Lógico, mesmo em minha melhor forma, nunca me senti bonita e muito menos feliz com a aparência do meu corpo. 

Por vezes “me achava”! Mas por pura auto-afirmação. Checando mais internamente, não me sentia aceitável. 

Meu foco era na falta. Logo, nada estaria suficiente. 

Todo sentimento de inferioridade por não ser o que idealizava se refletia no corpo que também não era o idealizado. 

Uma insatisfação manifestava uma vergonha do meu corpo….no meu corpo. 

Mas tudo muito velado, disfarçado. De fora parecia tudo bem. 

Desrespeitei muito os limites do parceiro corpo a fim de fazer tudo para atender às demandas de meu eu idealizado, muita exigência. 

Ser exigida e nada ser suficiente, aprendi muito cedo.

Reconhecendo e assumindo as compulsões

Já fui compulsiva por exercício. Eu dizia: se for pra correr meia-hora não vou nem sujar a roupa, pelo menos uma hora ou quem sabe mais!

Corri muito, fui viciada em academia, dei muita aula de aeróbica e fazia a aula junto com as alunas. Sem contar que aproveitava meu horário de almoço, das aulas que dava, pra fazer a “minha” aula. 

Exercício virou compulsão, alimentação virou confusão .

Decidia na minha cabeça as orientações do que pode e não pode para uma dieta, mas não ouvia a demanda do corpo. E quando ele tentava falar, porque ele já era meu amigo, eu dava um cala-boca. Quem tava no comando era minha mente e ela tinha decidido que seria assim 🤐.

Contraditório porque em alguns aspectos era bem conectada com os sinais do corpo. Mas como se fosse algo paralelo, acreditar no que sentia, sem uma aprovação externa era bem raro. 

Como tudo tem vantagens, aprendi muito sobre alimentação e fui ficando mais saudável, na marra! 

Tive bulimia por 8 anos. 

Era muito íntima com a privada!!! (Este é meu lado leve… Brincar com minhas mazelas) .

Uma torrada a mais do que eu havia programado e era razão pra eu comer pra vomitar . Dizia que era um ataque.

Aos poucos fui compreendendo o que isto significava.

Na paralela tinha tudo que eu não digeria nas minhas emoções, isto incluía a dificuldade que eu tinha na relação com minha mãe, porque eu era bem diferente do que ela gostaria. 

Trabalhando nas raízes do vício e da dependência de aprovação externa

E uns quatro anos atrás,  papeando com mamãe, ela me perguntou sobre a bulimia -assunto que nunca havia tocado – contei-lhe como tenho lidado com minha sensibilidade e como aprendi a confiar no que sinto, falei sobre as coisas que eram muito agressivas e violentas pra mim e nem percebia. No intuito de ser aprovada por alguém, duvidava de mim constantemente. Neste momento ela me disse: às vezes não sabia o que fazer com você, porque você dava umas “patadas” … acho que era por isto! Eu completei dizendo: sim, você queria que eu fosse como você queria e não era possível pra mim naquela época, isto chegava em mim como desrespeito e agressão. 

Eu não sabia lidar com isto, mas queria a aprovação dela, porque nem tinha a minha. Sem ter base em mim, buscava a base de alguém. 

Tudo isto e muito mais me levava a comer pra desentalar,  pra engolir tudo que eu não podia falar e expressar e vomitava  tudo que estava entalado. 

E aproveitava pra me punir pelo meu “erro”, porque vomitar é ruim pra caramba, e eu tinha errado, comendo mais do que “deveria”. 

Isto expressava todo meu erro, que no mais profundo, era ser como eu era. 

Existo logo incomodo. Era uma sensação que me permeava.

Aceitação zero e exigência milhão .

Tudo começou muito cedo na minha experiência na matéria.

Na gestação a expectativa era de eu ser um menino, já tinham duas meninas. Minha mãe diz que imaginava que papai gostaria de ter um menino, meu pai dizia que pra ele tanto fazia, se viesse com saúde. Minha mãe contava que achava que morreria no parto. Este episódio contarei numa outra postagem. 

Sempre ouvi que meu parto foi demorado, porque nasci grande…. (deu erro porque depois desandou fiquei baixinha kkkkk).

Bem! Por essas e por outras cheguei por aqui neste mundo, com uma sensação de estar errada. 

Foi numa sessão de renascimento que senti que não queria nascer porque não era o tal menino. E já sabia que desapontaria. 

Mas tive que nascer.

Sentia que ser como eu era, era um erro. 

Me sentia como se tivesse falhado e tivesse que compensar por não ser o que esperavam que eu fosse, fui me transformando numa fazedora que queria a todo custo agradar as pessoas. 

Uma mendiga. 

Muito bem disfarçada, mas observando honestamente e indo além da vergonha e da inferioridade, uma mendiga.

Por muito tempo não conseguia dizer não para as pessoas e qualquer possibilidade de alguém se incomodar com alguma atitude minha, eu recuava. 

Até que descobri que dizer não era Ok.  Desde que eu estivesse seguindo meu coração. Afinal não dá pra agradar a todos mesmo e principalmente estando neste lugar de escrava, não poderia mesmo ser respeitada, até porque eu mesma não me respeitava.

Hoje sei, eu só era diferente. Sempre me senti como se estivesse deslocada.

E com a bulimia isto só concretizava, afinal, como entendia tudo, mas sentia tudo diferente e não conseguia segurar esta atitude, me sentia uma ET 👽.

Falava disto na terapia.

Encarando a vergonha

Nem era tão comum assim ir pra terapia. Lembro-me de um comentário de uma pessoa muito próxima, que falou sobre mim: “mas ela parece tão normal, porque está fazendo terapia? “ 

Do tempo que terapia era pra doidos…. (não que eu não fosse kkkk)!

Primeiro levou um tempo até eu poder falar sobre a bulimia com alguém, precisei vencer esta vergonha! 

Quando consegui falar, estava buscando um jeito de entender o que acontecia, (+ou-1985) não se falava muito sobre isto, até que conheci um terapeuta que fazia Acupuntura e ele me disse algumas coisas que me ajudaram, me apresentou mantras e eu sentia que lá poderia ser transparente. 

Me tratou por um bom tempo e aos poucos ia tentando achar o jeito de sair desta, mas me sentia muito mal a cada “ataque”, assim me referia quando comia e vomitava, como um fracasso. 

Por vezes duvidava se estava pirando. 

Mas, depois do vômito, um alívio e por um tempo fiquei neste círculo vicioso.

Não digere, desentala, alívio, viciante como droga.

Mas a boa notícia é que como tudo é aprendizado, foi a bulimia que me empurrou pra um mergulho maior no autoconhecimento, o desespero de “me livrar” dos conflitos com o meu corpo, e a ebulição das minhas emoções. 

Na minha mente era uma lei e no meu coração era outra. 

Abrindo mão dos planos feitos com minha mente

Quando me casei, aos 23 anos, minha lei da mente era ficar casada, tinha um desenho idealizado do casamento, mas como tudo tem seu tempo e idealizado não é o ideal, não saiu como planejei. 

Tive que ir além dos meus medos de não ser aprovada, afinal sabia bem o que minha mãe achava da minha decisão, os amigos e a família de um modo geral.

Uma vez minha mãe me disse: você tem SORTE, tem um marido trabalhador, que gosta de você, e não tem boca pra nada! 

Socorro! SORTE? 

A mim soou como: “você nem merece tudo isto, tá no lucro!”

Porém quem sabia de como era esta relação pra mim era eu.

A voz do que eu sentia não contava. Aos poucos fui compreendendo que só eu mesma poderia dar voz ao meu sentir. 

Mas não é a mente que determina o tempo do coração. 

O pico foi quando um dia ele iria fazer um esporte e temi pela sua vida, eu o senti como um estranho, se ele morresse eu não saberia quem era este homem que eu chamava de marido. Percebi que estávamos em jornadas opostas, em universos paralelos. Eu havia mudado muito desde que nos conhecemos. Cada um em sua demanda, foi como foi. Afinal tudo tem seu tempo, os ciclos terminam e pedem uma certa coragem pra seguir por lugares que nem imaginava antes. 

Me divorciei, foi um abalo, por um bom tempo acordava no meio da noite sonhando que o chão do quarto estava cedendo, acordava correndo do quarto até que me situava que era a sensação de ficar sem chão com tanta mudança.

Era  um pesadelo movido pelo medo, afinal foram 16 anos nesta relação. Voltava para a cama a esperar regular o batimento cardíaco, que estava a milhão, e tentava dormir novamente.

Pouco a pouco o novo chão se firmou e fui seguindo minha vida, com as novas bases, nas minhas pernas. 

Esporadicamente ouvia uma crítica sobre minha atitude, mas endurecia e seguia em frente e aos poucos as coisas se acalmaram por muitos anos e dei foco a outras questões.

Muitos mergulhos no autoconhecimento e um novo ciclo se apresenta, sentindo-me bem mais leve depois de tantas andanças pelos meus eus, já me sentindo mais arejada e transitando um pouco mais livre na minha própria vida. Sentia-me presa em alguma coisa que não identificava bem.

Foi quando me perguntei, cinco anos atrás, afinal se me sinto presa, o que tolhe a minha liberdade? 

Muito logo meu corpo se manifestou e começou a me mostrar, que ainda tinha coisas pra olhar neste quesito ….

Me sentia presa no meu corpo ou nas crenças sobre esta prisão.

Constelando e ressignificando pactos de fidelidade

Depois de mais um curso de constelação quântica, quando constelei a bulimia, cheguei na minha relação com a avó materna. 

Logo depois fui pra uma cirurgia espiritual, no repouso acordei e me vinha uma voz : “quero comer alguma coisa”, mas na conexão com meu corpo que hoje é bem afinada, observei: não estou com vontade , nem mesmo necessidade. 

A voz permanecia. Apliquei o que havia aprendido no curso, observei de onde vinha esta “voz” e vi minha avó materna. Compreendi então. Ela e minha mãe tiveram uma vida pobre e com muitas limitações. 

Eu na minha fidelidade a elas desenvolvi problemas no estômago, algumas intolerâncias e bastante sensibilidade no meu aparelho digestivo. 

Como se a mensagem fosse: “estou como vocês”. 

Vocês tinham restrições, eu também. Mesmo que as restrições fossem diferentes, por necessidade ou por doença. 

E como na Constelação dizemos:”respeito o seu destino, mas deixo com você e tomo a minha vida como minha”.

Levei dois dias pra sentir isto, porque sentia como se estivesse abandonando-as, sendo livre pra comer. 

Como se para pertencer,  fiz este pacto de fidelidade.

Fiquei firme no meu propósito. Tomo como minha, minha vida e sigo em frente. 

Lembrei-me de uma vez que viajei de trem  a 👵 vovó e antes de voltarmos, almoçamos na cidade para onde fomos. Ela pegou um pão e colocou uma linguiça, embrulhou num guardanapo e olhando para os lados, para ver se alguém estava olhando, foi colocando na bolsa. 

Eu envergonhada (ainda não tinha estudado minha vergonha da pobreza) disse: vó não precisa levar comida, no trem tem refeição. Ela me respondeu: “eu sei, mas não consigo deixar comida no prato e sempre gosto de ter alguma coisa de comer na bolsa”, e completou a frase:”acho que é porque passei tanta necessidade, sempre levo algo pra comer”. 

Fiquei impressionada com a lucidez dela e observei no momento que revi o que estava ocorrendo comigo, que por intolerâncias e sensibilidades, sempre tinha algo pra comer dentro da minha bolsa. 

Fidelidades! 

Depois disto comecei a me sentir mais relaxada com a comida.

Sincronicamente, precisei fazer um repouso de sete dias após a cirurgia espiritual e fiquei sem exercícios.

Estreitando laços com o prazer e com a saúde

Ao final do repouso já estava gostando de não fazer exercícios. Quando retornei, comecei e experimentar me exercitar pelo prazer e pela saúde e não pela obrigação. 

Fazer o exercício para o corpo e não para minha mente.

Começou uma nova etapa.

E daí surgiu uma nova meta quando li uma frase:

“Gosto de mim por inteiro, mesmo com aqueles detalhes que eu mudaria” 

Nem imaginava o quão satisfatório é viver assim.

Esta foi uma parte do capítulo bulimia a se esclarecer para ampliar a sensação de liberdade. Aos poucos vou contando mais capítulos.

Suficientemente, Siari

6 Replies to “A cura da bulimia”

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