Aceitação

Relação tão intensa, de muitas bifurcações, mas sempre uma oportunidade de aprofundar o aprendizado de aceitação acordada. Digo acordada porque se trata de poder olhar como é, sem a idealização de uma relação plena de gratidão e amor em tempo integral.

Eu pessoalmente não acredito nisto.

Pra mim funciona muito aceitar que nem sempre é um mar de rosas e tudo lindo no amor, até porque não foi assim mesmo.

Não duvido do amor mas também não nego o desamor.

Sei e hoje sinto que mamãe me deu o que era o melhor dela, mas mesmo o melhor dela me doeu inúmeras vezes. Hoje entendo que foi através destes caminhos, muitas vezes tortuosos, que estou como estou hoje, e é um bom lugar, em mim.

Claro, muitas vezes nossa relação não foi tão fácil, inclusive pela semelhança grande em alguns aspectos.

E um fator importante também – Freud explica bem isto – minha relação com papai era muito próxima – complexo de Electra. Além disto, pra quem leu meus posts anteriores, eu era a “mãe” dele e isto nos aproximava ainda mais, eu o mimava bastante e recebia bastante atenção também. Uma troca.

Muitos conflitos e a sensação que nada que eu fizesse seria o suficiente pra ela. Por muito tempo achei que era algo errado comigo. Mesmo me defendendo e me justificando me sentia inadequada e insuficiente, estas sensações me deixavam muito tensa o tempo todo e sempre fui muito intensa também, sempre tentando achar um jeito de sair deste desconforto.

Nunca fui uma pessoa que se estava ruim aceitaria como : é assim mesmo !

Não é! Se está ruim, preciso fazer algo. E o foco na solução!

Assim sinto um grande agradecimento pela mamãe porque ela me cutucava bastante. Meu eu idealizado na proposta firme de ser perfeita, fui me superando.

Aceitar que minha mãe não era a mãe idealizada – com isto quero dizer a mãe dos sonhos – foi sendo de grande ajuda.

Também aceitar que eu a escolhi. Isto levou mais tempo.

Mas o que encobria tudo é que o que eu queria, era exatamente o mesmo que ela: SER ACEITA. Assim, não a via, estava totalmente envolvida em ser aceita.

Empatia

Até que, no meio do “turbilhão bulimia”, numa cabeleireira, vi numa revista uma reportagem sobre um livro que falava sobre bulimia, não parei até encontrá-lo, porque não havia nada de apoio à este assunto naquela época.

Achei o livro e nem lembro muito o conteúdo, falava de conflitos com a mãe e a relação com a bulimia, mas o que eu precisava mesmo eu gravei: “sua mãe, antes de ser mãe, já era uma mulher, foi uma adolescente, e foi uma criança também”.

Pela primeira vez pensei na minha mãe sem estar no papel de mãe. Foi bem intenso pra mim esta possibilidade. Fiquei com isto.

Depois disto ainda demorou bastante até eu perceber que a exigência não era “comigo” …. era com ela e com tudo.

Mas minha mãe internalizada, cobrava bem também e quando a cobrança ou expectativa vinha de fora, imediatamente eu me defendia e atacava, ficava indignada.

Ao perceber quão reativa eu ficava quando me julgavam ou criticavam – sem antes me perguntar nada, invalidando e desconsiderando minha percepção sobre mim, como se alguém pudesse saber de mim sem nem ao menos me perguntar e considerar o que eu sabia de mim mesma – compreendi que: como eu não me permitia ser como eu era, vibrava isto e dava abertura para ser invadida. Invadida, reagia e me distanciava ainda mais de mim.

Camadas e camadas desta relação foi sendo trabalhada, até que chegou a compreensão no coração, do que já sabia na minha mente.

Respeito

Fui aos poucos relaxando no que sabia de mim e trazendo para a consciência aspectos que me liberariam de tanta auto-acusação.

Teve um dia que compreendi: preciso ser o que sou, isto poderá desagradar algumas pessoas, mas que fique quem possa me aceitar e gostar de mim assim.

A coragem foi chegando vagarosamente, paralelamente fui me colocando no meu lugar em minha constelação familiar e principalmente com mamãe.

Compreendi que eu não era responsável por ela e que precisaria respeitá-la mesmo naquelas coisas que considerava nada a ver pra mim.

Lembrando: eu sou eu, ela é ela.

Com isto, as coisas foram se acalmando, sempre que a julgava, me respeitava porque não havia conseguido ir além do julgamento, mas retornava à meta. E lembrava: ela quer ser aceita.

Às vezes, isto não era suficiente, porque eu estava tão querendo ser aceita também e não poderia dar o que não tinha.

Novamente ok. Não posso dar o que não tenho.

Me aceitando, aos poucos fui aceitando-a também. Sem atacar, pude começar acolher a parte dela e ouvi-la sem julgar.

A morte do papai ajudou, porque a competição de qual de nós seria melhor “mãe” pra ele também acabou.

Nossa relação se afinou muito depois disto.

Neste tempo de harmonizar a relação, já não mais acusava ela – ainda que sutilmente – das minhas mazelas.

Um dia, mencionei algo e ela prontamente se defendeu. Eu lhe contei o que senti. Disse-lhe: mãe eu hoje sei que tudo que fez foi o seu melhor, mas mesmo assim foi ruim pra mim e por isto eu me trato hoje para ir além de te acusar, porque mesmo que você não acredite, eu sei que te escolhi e você a mim também, por isto estamos juntas nesta vida.

Esta foi uma nova etapa na relação. Eu não a acusava e ela não se defendia, daí começamos a nos ouvir e considerar nossas diferenças.

Lembro-me alguns anos atrás, que papeando, mencionei a ela que quando ela tentava me forçar a ser o que eu não era, ou a ser como ela queria que eu fosse, eu me sentia invadida e desrespeitada, porque o que ela queria não era eu, era ela mesma em mim. Ela ficou quietinha um pouco e me disse: ah! por isto, às vezes você me dava umas patadas e eu não entendia o porque! E disse mais: às vezes eu não sabia o que fazer com você!

Esta fala dela me libertou muito. Sempre tive a sensação que as pessoas não sabiam o que fazer comigo, e isto me levava àquela sensação de inadequação absoluta. E uma certeza que estava sozinha.

Falamos um pouco disto e ela me disse que eu era diferente e reagia de forma que ela ficava sem saber.

Aos poucos fui compreendendo os recursos dela, também fui aprendendo me aceitar na minha diferença e que minha sensibilidade não poderia ser desconsiderada, especialmente por mim.

Podendo assumir que amor de mãe nem sempre é tão amoroso assim e que amor de filha também.

Fui podendo expandir o espaço de amor com ela sem competição, convencimento, submissão, sem jogos nem brigas para ser aceita, porque na marra não rola.

Costumo dizer “aceita que dói menos”. Descobri isto com bastante dor de não aceitação.

Com aceitação o aprendizado flui melhor.

E o resultado é a libertação dos jogos para ancorarmos a verdade.

A verdade é que minha relação com ela transitou entre amor e dor. Neste percurso chego num lugar bem lindo dentro de mim, quando me liberto das expectativas dela sobre mim e a liberto de minhas expectativas nela.

Assim fica o amor.

Eu como filha (pequena) aceitá-la como mãe (grande), ainda que idosinha precisando de meus cuidados, o exercício de manter-me filha.

Gratidão

Neste lugar, o amor e a gratidão fluem e posso fluir também na alegria e contentamento deste amor, experimentar a compaixão com sua vida e tudo que nela contém, na gratidão por tudo que ela passou e as oportunidades que me chegaram através dela.

Que ela minha mãe é a única e a melhor mãe que eu poderia ter tido para meu crescimento como Ser Humano, que é que eu sou… um ser humano.

Agradeço a cada atitude dela que me instigou a me entender e mudar.

Grata também pelo casamento dela com papai, João Munhoz, e pelo bem maior que originou outros bens maiores: minhas irmãs Sangita Ana Regina, Iracelia, e meu irmão João Wagner, maridos e esposa e todos meus sobrinhos e sobrinhas tão amados que me compõe em minha possibilidade de expandir o amor ❤️: Jeferson, Juliana, Bruno, Rafael, Airo, Natália, Aninha, Adria, Francesco e filhos destas pérolas, verdadeira energia de sol ☀️ no meu coração ❤️: Stella, Thomas e Mia, jóias preciosíssimas.

É através desta Mãe que chegou a mim também tios, tias, avó e avô e primas e primos tão queridos que sinto uma alegria enorme em poder tê-los e tê-las.

Tudo isto e MUITO mais me veio através dela, mãe que me deu a vida, e tudo de bom que nela contém.

Sinto que me harmonizar com mamãe foi a demanda de minha vida.

Batemos de frente inúmeras vezes neste aprendizado, mas crescemos juntas.

Eu como filha e ela como mãe, cada uma no lugar onde se compõe.

E fui aprendendo eu sou eu, e ela é ela.

Posso ser como sou, mesmo com as expectativas dela sobre mim, através disto também aprendi me aceitar sendo diferente do que ela queria, e quando me aceitei, ela me aceitou também. E ainda hoje me surpreendo quando sinto seu respeito, mesmo que seja algo que vai fora do que ela acredita.

Assim aprendemos a nos respeitar nas diferenças que se complementam. Um tanto de humildade chegou a nós.

E quando tenho um dia com ela como o de ontem, seu aniversário, dia da libertação dos escravos (todo ano mencionamos isto) e ouço suas passagens e vou ouvindo suas atualizações, me encanto com ela, que se reavalia e se supera a cada momento e mais um passo damos juntas.

Junto no coração, junto na vida, junto na alma.

Linda e querida mamãe Flávia, grata por ser minha mãe, sendo sua filha, sou um ser humano melhor, feliz e posso seguir com a força de sua sabedoria e disponibilidade em meu coração.

E a clareza: eu sou a filha você é a mãe.

Neste lugar, na família, encontro meu lugar no mundo e o amor pode assim fluir melhor.

Suficientemente, Siari

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